Há poucos dias, tive uma pequena discussão com um homem cujo nome prefiro não revelar sobre o que era jornalismo de investigação e qual o seu papel na sociedade contemporânea. É bem verdade que há uma grande confusão entre o jornalismo ‘simples’, chamemos-lhe assim, e o jornalismo de investigação. A grande maioria das notícias feitas por jornalistas surge a partir de fontes oficiais – alguns estudos apontam que esse valor ronda os 75 por cento. Há, no entanto, alguns jornalistas que se dedicam a descobrir e a procurar notícias relevantes nos mais variados sectores da sociedade.
Antes de avançarmos mais, é importante referir que, ao contrário do que muitos acham – e não estou a falar nisto apenas por ser um interessado directo, dado ser essa a minha profissão -, o jornalista é, possivelmente, um dos agentes mais importantes da sociedade. Senão façamos um pequeno exercício: alguém consegue imaginar-se, um dia que seja, sem qualquer espécie de notícias? E com isso incluo aquelas que nos são relatadas por não-jornalistas, porque na grande maioria das vezes elas são apreendidas porque houve um jornalista que a relatou.
O jornalista de investigação é simplesmente alguém que vai mais além. Não é um coscuvilheiro que procura revelar algum segredo sórdido de uma celebridade nem um calhandreiro que tem como simples objectivo denegrir a imagem de outra pessoa. Não. O jornalista de investigação é alguém que demonstra o engenho e a coragem necessários para resolver questões realmente importantes numa sociedade. Em Portugal, é certo, não existe uma grande tradição de jornalismo de investigação. O (único) caso que importa nomear aqui talvez seja o da Casa Pia. Se não tivesse sido aquela jornalista (que, por acaso, não quer saber das suas fontes para nada e as explora até ao tutano para subir na carreira – é pena, mas é verdade), muitas crianças ainda estariam a passar por aquele tormento e, provavelmente, haveria outras que estariam a entrar nesse mundo obscuro do abuso sexual infantil. No entanto, há casos brilhantes de jornalismo de investigação, que lutam e, muitas vezes, colocam em risco as suas próprias vidas para melhorar o ambiente em que vivem.
Sei que já referi o grande Antonio Salas noutros posts, mas tenho de o fazer de novo. Aquele, sim, é um verdadeiro jornalista de investigação. Não ‘queima’ as suas fontes, não destrói vidas – reconstrói-as, até – e, acima de tudo, não planeia fazer julgamentos na praça pública. Simplesmente mostra uma realidade e traz à tona os responsáveis, facilitando a sua punição nos meios convencionais. É esse o trabalho de um jornalista. Deveria ser esse o trabalho de todos, mas nem todos têm as ferramentas necessárias. Por isso, é importante investir nessas ferramentas, na construção de uma sociedade mais justa, mais transparente e sem esqueletos no armário.
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