terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Quais os melhores da tua biblioteca?

Vícios. Toda a gente os censura, mas toda a gente os tem. A verdade é que nem todos são necessariamente maus. Eu cá tenho os meus. Considero-os saudáveis, mas têm o seu quê de loucos. O primeiro, como já sabem todos os que por cá costumam passar, é a música – seja tocada ou ouvida, é omnipresente no meu dia-a-dia; o segundo é a leitura. Livros, livros e mais livros.

Orgulho-me de poder dizer que sou suficientemente louco (e, quiçá, desocupado) para ler dois ou três livros por semana. Sim, por semana. Nesta altura, o que assenta delicadamente na minha mesa de cabeceira são quatro livros, cada um interessantíssimo à sua maneira: O Palestiniano, de Antonio Salas; Do Jornalismo aos Media, do meu caríssimo professor Rogério Santos; Um Ano no Tráfico de Mulheres, também de Antonio Salas; e As Farpas, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Mas estes são apenas os “trabalhos em curso”. Tenho cerca de 40 livros à espera de ser lidos e mais alguns na lista de próximas compras. Para muitos é um exagero, para mim é o que me impede de me sentir pedante. Pelo menos, na minha mente.

Para mim, os melhores livros presentes na minha biblioteca (será que já lhe posso chamar isto?) são – e aconselho-os desde já:

Breve História de Quase Tudo (Bill Bryson)
Na Terra dos Cangurus (Bill Bryson)
Diário de um Skin (Antonio Salas)
Laboratório de Venenos: De Lenine a Putin (Arkadi Vesberg);
Se Isto é um Homem (Primo Levi);
Musicofilia (Oliver Sacks);
A Doutrina do Choque (Naomi Klein);
O Cozinheiro dos Reis (Ian Kelly);
The Cult of the Amateur (Andrew Keen);
2666 (Roberto Bolaño);
Matteo Perdeu o Emprego (Gonçalo M. Tavares);
Colapso: Ascensão e Queda das Sociedades Humanas (Jared Diamond);
Mercador da Morte (Douglas Farah e Stephen Braun);
Gomorra (Roberto Saviano);
Grandes Ideias Perigosas (John Brockman);
Cosmos (Carl Sagan);
O Planeta do Futebol (Luís Freitas Lobo);
Compreender os Meios de Comunicação (Marshall McLuhan);
A Mensageira (Daniel Silva);
Milagre nos Andes (Nando Parrado);
O Mundo sem Nós (Alan Weisman);
As Intermitências da Morte (José Saramago);
O Homem Duplicado (José Saramago);
Os Espiões do Papa (Eric Frattini);
O Senhor dos Anéis (J. R. R. Tolkien);
A Capital! (Eça de Queirós);

Quais são os teus?

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Qual o Caminho para a Humanidade?

Pode parecer altamente arrogante da minha parte estar para aqui a dissertar sobre uma temática desta índole – ainda para mais num artigo desta dimensão. No entanto, estou a fazê-lo por sugestão de um bom amigo e parceiro de discussões intelectualmente apelativas.
A verdadeira questão posta por ele foi a de tentar compreender qual a forma que a Humanidade poderia ter para evoluir e garantir a sua subsistência, escapando às suas próprias falhas e limitações. Quanto a mim, a resposta pronta e perene seria baseada em duas dimensões fulcrais: ciência e tecnologia. No entanto, há muitos problemas advindos desta ideia. Em primeiro lugar, há – e sempre haverá, por mais voltas que dermos – questões políticas que emergirão desta fome de desenvolvimento. E – atenção! – não estou a dar um toque negativo à palavra “política”, como agora parece moda ser feito… Estou a falar de puros – e absolutamente normais e compreensíveis – conflitos de interesses entre vários (muitos!) indivíduos.
Por outro lado, há os inevitáveis conflitos e obstáculos financeiros ao desenvolvimento científico-tecnológico. A ciência é magnífica, sem dúvida, mas tem de ser fomentada. Se não existir investimento (ou se existirem contra-investimentos, como tem acontecido com o lobby do petróleo contra as energias renováveis) financeiro, haverá muito pouca gente a trabalhar para o desenvolvimento humano. É triste, mas é verdade. E muito pouco poderemos fazer sobre isso.
É também verdade que, cada vez mais, existe uma maior sensibilização para esta realidade. E temos vindo a tê-la cada vez mais cedo nas nossas vidas. Há vinte anos, o lema era combater os CFC’s para evitar a danificação da camada do ozono. Hoje, o problema está praticamente resolvido, graças à informação.

Acredito, portanto, que o verdadeiro caminho para uma sustentabilidade funcional e sustentável da Humanidade é, antes de tudo o resto, a comunicação e a proliferação da informação, nunca esquecendo os efeitos nefastos do exagero da transparência. Ainda assim, se a informação for seleccionada da melhor forma possível e se for convenientemente comunicada, poderemos consciencializar as massas para, mais tarde, ter um consenso generalizado de que todos poderemos trabalhar a favor da ciência, do desenvolvimento tecnológico e, em última análise, a Humanidade.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Qual é a melhor banda do mundo?

Primeiro que tudo, é preciso perguntar: o que faz uma banda ser boa? Se pensarmos bem, é preciso uma dose gigantesca de sorte para reunir quatro ou cinco (ou, quiçá, mais) indivíduos num estúdio, que saibam trabalhar bem em conjunto, trazendo toda a sua genialidade para bem do conjunto. Além dessa química, fará falta o brilhantismo de cada individualidade. O brilhantismo técnico e o brilhantismo de ideias. Se a ideia for boa, tem de ser bem concretizada.

Portanto, uma boa banda terá de ter guitarristas fenomenais (cada um à sua maneira), um baixista que saiba manter a banda unida em cada compasso, e um baterista que saiba adornar o ritmo com laivos de genialidade sem precedentes. E, embora seja necessária imensa sorte para conseguir reunir estes génios, a verdade é que vivemos num tempo em que isso acontece com alguma frequência. Podemos então dizer que há bandas geniais a tocar defronte dos nossos olhos e que temos a enorme honra de os poder apreciar.

Quanto a mim, há grupos absolutamente geniais. Se os nomeasse todos, ficaria aqui até ao fim de 2011. Mas escolho apenas quatro: Keane, Pearl Jam, Dream Theater e Muse. Os Keane, sendo compostos por apenas três músicos, não ficam a perder por serem poucos – como, aliás, os Muse. Tim Rice-Oxley traz toda a criatividade e concretiza-a de forma irrepreensível; Richard Hughes torna o ritmo simplista mas eficar; e Tom Chaplin transforma as melodias em hinos. Os Pearl Jam são a banda rock por excelência: Matt Cameron é um dos bateristas mais dotados da sua geração; Jeff Ament é o senhor responsável por manter o barco no rumo certo; Stone Gossard é capaz de transformar três acordes em músicas do mais sofisticado que já se fez; Mike McCready manda a casa abaixo com os seus solos fenomenais; e, Eddie Vedder, bom… Como descrevê-lo? A voz, as letras, as melodias… Praticamente tudo o que lhe sai da zona abaixo do cabelo é digno de magnífico registo. Os Dream Theater são puramente o fruto de uma fantástica educação musical de 6 ou 7 anos em Berkeley, aliados a muito trabalho em estúdio. Não há nada melhor que ouvi-los. Mas posso dizer que aquele grupo tem, para mim, o melhor guitarrista do mundo (John Petrucci), o melhor baixista (John Myung) e teve, até há bem pouco tempo, um dos melhores bateristas de sempre: Mike Portnoy.

Mas, quanto a mim, o galardão de melhor banda do mundo vai para os Muse, muito por culpa de um tal Matt Bellamy. Um simples prodígio. Aprendeu a tocar piano aos quatro anos, aprendeu a tocar guitarra aos 13, fundou os Muse (na altura ainda se chamavam Gothic Plague) com 15 e desde aí foi sempre a subir. Bellamy é, nem mais nem menos, compositor, letrista, guitarrista, pianista e vocalista dos Muse. Mas a banda não é um one-man-show. Nada seria possível sem o inovador Chris Wolstenholme e a criatividade simplista do baterista Dominic Howard.

Estas, para mim, são as melhores bandas do mundo. E para ti?

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Teorias da Conspiração: Ainda fazem sentido?

O Elvis ainda está vivo. O Jim Morrison não está enterrado em Paris. A Marilyn Monroe foi assassinada pela CIA. O John F. Kennedy foi assassinado pela CIA ou pela Máfia. O Pearl Harbor foi provocado pelos Estados Unidos como justificação para testar a bomba atómica. Michael Jackson não aguentava a fama e encenou a própria morte. O 11 de Setembro foi provocado pelos Estados Unidos como justificação para roubar petróleo do Médio Oriente. O 7 de Julho foi um inside job dos ingleses. A Princesa Diana foi assassinada pela Mossad, a pedido da Rainha de Inglaterra.

Verdades? Há quem diga que sim. Há quem diga que não. Eu fico-me pelo meio-termo. Talvez algumas coisas sejam estranhas – e, possivelmente, terão uma explicação não tão paranóica -, mas há outras demasiado rebuscadas.

A questão é a seguinte: será que ainda faz sentido criar teorias da conspiração que sejam explicativas de uma dura realidade? Porquê arranjar explicações paranóicas e subversivas do que é oficial? Atenção: Não estou a dizer que tudo o que é oficial é verdadeiro. Mas não julgo necessário cair em julgamentos ridículos, como o fez o “grande” teórico da conspiração David Icke, quando disse que a Rainha de Inglaterra é um lagarto, descendente dos tenebrosos extraterrestres que nos controlam a partir do espaço. E como é que Icke lá chegou? Por duas vias: teve uma “visão” e uma amiga disse que um dia tinha vista a Rainha no seu quarto a agitar alegremente a sua cauda. Certo.

É bem verdade que esta transparência contemporânea exacerbada acaba por trazer, como sabiamente diz Phillipe Breton, uma extrema opacidade nas acções de todos e, dessa forma, podem ser construídas enormes formas de corrupção. Mas aquilo que faz nascer estas teorias é, acima de tudo, uma crescente descrença nos líderes políticos e a busca de uma causa escandalosa que os faça cair. No entanto, nem todos os fins justificam os meios.

Ainda assim, não deixam de existir ideias desprovidas de sentido e com alguns factos curiosos (a ser verdadeiros). Em qual(is) acreditas?

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Achas que sabes tocar?

Deixemos a modéstia de lado por uns momentos. Sim, acho que sei tocar. E, embora consiga dar uns toques numa bateria ou num baixo (já para não falar nos então humilhantes instrumentos que toquei na preparatória, como o xilofone ou a flauta), acho que o melhor instrumento que se adapta a mim é, sem dúvida, a guitarra.

Um corpo de madeira leve e fina, um braço suave e seis cordas afinadas compõem, grosso modo, uma guitarra. E o mais incrível é a quantidade de sons que dela podemos tirar, quando a manuseamos com algum conhecimento de causa.

Dei-me conta deste meu belo infortúnio que é tocar guitarra há 12 anos quando estava a trocar-lhe as cordas. As enferrujadas saltaram fora para dar lugar às douradas, novas e mais sonantes. Tocar em cordas velhas é o mesmo que tentar cantar com uma grande dor de garganta. A potência e a envolvência são absolutamente diferentes. Até as pausas e os silêncios são mais profundos – sim, o silêncio também é música, se pensarmos bem nisso.

Acho extremamente interessante o momento em que algo dentro de nós dá um clique e faz com que pensemos: quero aprender a tocar um instrumento/cantar. Eu lembro-me bem desse dia. Estava a fazer a cama, com o rádio sintonizado na Rádio Cidade, em Outubro de 1998. Era então anunciada a Pretty Fly, dos Offspring. O meu pensamento imediato foi: quero conseguir fazer isto. Quero poder agarrar numa guitarra e reproduzir aquilo. Quero conseguir cantar assim. É bem verdade que só dois ou três anos depois de muita prática é que consegui cumprir essa vontade. E, nessa fase, já tinha muitos outros desafios mais aliciantes pela frente.

Posso dizer, hoje, depois de ter trocado de cordas e de ter passado duas horas a tocar e a cantar música alternativa (pobres vizinhos…), que valeu bem a pena todos os dias de rouquidão e de dedos magoados. Ainda assim, tenho de agradecer aos meus mestres: Kevin “Noodles” Wassermane, Kirk Lee Hammett, James Alan Hetfield Datum, Matthew James Bellamy, Edward Louis Severson III (aka Eddie Vedder), Thomas Oliver Chaplin, William Patrick Corgan, entre muitos outros.

Claro que isto não quer dizer que ache que sei tocar/cantar bem. Isso não me compete a mim decidir.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Injustiça d'Ouro 2010

Antes de mais é preciso dar o valor mais que merecido ao grande José Mourinho pela – esperada - vitória da primeira edição da Bola de Ouro FIFA para treinadores. Em pouco mais de oito anos a ganhar títulos, Mourinho revelou ser o supra-sumo das tácticas e o guru da psicologia de balneário; além de ter mostrado ser um dos melhores treinadores de futebol de sempre (o melhor, arrisco), consegue sempre manter comportamentos que espicaçam os seus adversários e, ao mesmo tempo, motivar a sua equipa.

Mas o que marcou a edição deste ano da atribuição dos prémios da France Football (agora em conjunto com a FIFA), pelas piores razões, foi a injusta entrega do prémio de melhor jogador do mundo em 2010.

Lionel Messi é, sem dúvida, um dos melhores jogadores de todos os tempos. Tem carreira ainda curta, mas já o podemos dizer. No entanto, e perante a questão “Terá Messi sido o melhor do ano de 2010?”, a resposta terá de ser obrigatoriamente um rotundo “não”. Não está em causa a qualidade incrível da “Pulga”. Nada disso. O que está em causa é a inferior prestação de Messi no ano passado, quando comparada com outros nomes.

A própria escolha de Messi para ser o melhor do ano é de estranhar. Senão vejamos: onde está Wesley Sneijder, que ganhou tudo o que tinha para ganhar, pela mão de Mourinho, no Inter de Milão? Campeão caseiro, vencedor da taça nacional e campeão europeu com a camisola do Inter. E, como se não bastasse, chegou à final do Campeonato do Mundo, sendo derrotado já nos minutos finais do prolongamento, após dura e longa batalha pelo caneco.

E depois há Xavi. Vencedor da Liga espanhola, com uma carreira fenomenal, naquela que já é considerada como um dos melhores conjuntos catalães de todos os tempos. Além disso, Xavi foi também a roda dentada que pôs a funcionar a “roja” que viria a vencer o Campeonato do Mundo da África do Sul. Sim, existe a questão da posição pouco convencional para se ganhar um prémio deste género. Mas então que dizer da vitória de Fabio Cannavaro - um defesa! - em 2006?

Mas não. Ganhou Messi. O mesmo Messi que não marcou um único golo pela Argentina, a selecção humilhada pela força bruta alemã com uns expressivos 4-0, durante o Mundial. O mesmo Messi que só ganhou um campeonato, com alguns laivos de genialidade (já comum) noutras competições. Mas, para Joseph Blatter e para a sua FIFA, foi o melhor jogador do mundo em 2010. Mesmo quando todos os contemplados desde 1994 foram vencedores de um campeonato mundial...

E esta parece não ser a primeira vez em que se favorece Lionel Messi, mesmo quando os argumentos não ajudam. Já em 2007, quando Kaká e Ronaldo disputavam o prémio, Messi conseguiu ficar à frente do português, em segundo lugar. Mesmo quando Ronaldo havia sido o protagonista de uma época brilhante no Manchester United (42 jogos, 20 golos), sendo inclusivamente campeão de Inglaterra; e com Messi lesionado durante grande parte da temporada, embora tenha sido campeão em Espanha (27 jogos, 15 golos).

Mas, no fim de contas... Messi. Porquê?

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Moderação precisa-se!

Os fundamentalismos estão em voga. E não estou a falar apenas de religião. Estou a falar de tudo. As crenças pessoais têm uma força cada vez maior, mesmo que não sejam baseadas em nada a não ser numa pura opinião pessoal. Falta humildade.

Comecemos pelo que causa mais fervor: religiões. Sim, é verdade que todas as religiões assentam em pressupostos talvez algo fantasiosos. No entanto, aquilo que falta a muita gente é profundidade para compreender a mensagem e não o “fenómeno” descrito. A Bíblia, como qualquer outro texto religioso, não é História. É Religião. Com mensagens simbólicas a propósito deste ou daquele desafio que se possa colocar na vida do crente. Todo aquele que não compreender isto (seja ele crente ou não), não tem o mínimo de inteligência ou de aceitação da diferença.

E, por incrível que possa parecer, também parece ter nascido uma vaga de descrentes fervorosos, para os quais o fuzilamento de todo e qualquer ser que acredite numa religião parece uma opção aceitável. De novo, o que é que custa aceitar um ser diferente? Não haverá uma compreensão de que a diferença poderá levar-nos a sítios ligeiramente mais evoluídos? Será que a troca de conceitos e aprendizagem através de experiências diferentes não são ideias alcançáveis para este tipo de gente?

Deixem-me falar do meu caso pessoal (embora este talvez possa reverter-se contra mim mesmo). Julgo-me minimamente conhecedor das principais religiões, sejam elas o Budismo, o Judaísmo, o Islamismo e, principalmente, por me ser culturalmente inerente, o Cristianismo. Por outro lado, compreendo o racionalismo que faz com que outros não acreditem na existência de um Deus. Creio, até, compreender a filosofia que envolve o Satanismo. E, por incrível que pareça, todos eles defendem o mesmo: ética perante os homens para que o futuro seja mais risonho, vulgo humanismo. Agora, o que os homens (fundamentalistas) fazem com estas ideias é algo completamente diferente.

Embora mencione especificamente a religião, não será difícil perceber que todos estes fundamentalismos baseados no “eu é que sei, eu é que tenho razão, eu é que sou o dono da verdade” estão presentes em praticamente todas as áreas que dizem respeito à vida em comum, como, por exemplo, a política ou mesmo a ciência.

Julgo que, enquanto indivíduos, não devemos menosprezar qualquer tipo de conhecimento ou de ideias que nos podem ser úteis, de quando em vez. E, acima de tudo, julgo que alguma humildade e tentativa de compreensão do “outro” e de aceitação dos seus modos de vida sejam factores muito positivos para a vida em sociedade. Lembrem-se do método socrático: tese, antítese e síntese.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Julian Assange: Herói ou Vilão?

Sou um particular admirador de jornalistas e de investigadores que fazem de tudo para trazer à tona tudo a que se possa chamar de verdade (embora o próprio conceito seja problemático, mas não é por aí que queremos ir). Admiro muito gente que arrisca a sua própria vida para divulgar algo humanamente valorizável. No entanto, há que estabelecer um limite: se essa verdade ameaçar vidas humanas, talvez não seja tão nobre divulgá-la. Ou pelo menos da forma mais convencional.

Darei aqui dois exemplos do mais alto calibre para que melhor se compreenda o meu ponto de vista. Nápoles, 2004. Roberto Saviano, um jovem jornalista italiano começou a desenhar aquilo que viria a ser uma brilhante investigação sobre a máfia napolitana, a Camorra. Foram divulgadas actividades ilícitas, procedimentos de assassinatos (incluindo o homicídio ocorrido em Cascais em 1984, numa cabine telefónica, num ajustes de contas entre membros de famílias napolitanas rivais), casos de corrupção e, acima de tudo, nomes. Muitos nomes de intervenientes nestas práticas. Até aqui, tudo bem. Apesar de Saviano ter de viver escondido e de ter de se proteger ao máximo da Camorra, provavelmente foram conseguidas algumas medidas de prevenção e combate à máfia.

Jerusalém, 2006. O jornalista espanhol de pseudónimo Antonio Salas estava já a meio da sua investigação sobre as guerrilhas de resistência palestinianas e sobre a religião islâmica em si. Além de falar sobre procedimentos, Salas dá-nos uma visão completamente diferente da que os media convencionais ocidentais nos oferecem. E combate, sobretudo, o preconceito. As ideias (erradamente) criadas pelos ocidentais caem todas por terra com as descrições feitas pelo jornalista espanhol, ao longo da sua infiltração em organizações como o Hezbollah, a Al Qaeda ou o Hamas.

E, do outro lado, temos Julian Assange, que procura fazer o mesmo trabalho na secretaria, sem ir ao terreno. É certo que é uma atitude nobre, a de divulgar ataques sérios à humanidade. Aquilo que teria de ser bem mais medido são as condicionantes inter-culturais: se Assange divulga documentos relativos à diplomacia, podem nascer complicações diplomáticas com repercussões humanitárias gigantescas. E, aí, teremos aquilo que o próprio Assange tencionava combater: um povo a sofrer pelos erros dos seus governantes. Mas se os erros não forem do domínio geral, talvez o povo não sofra tanto.

Não estou com isto a dizer que Julian Assange é uma ameaça internacional ou que devia ser preso durante uma infindade de tempo, por saber verdades comprometedoras para todos os governos mundiais (como Viktor Bout, por exemplo). No entanto, aquilo que é necessário é uma gestão da divulgação destes documentos e uma análise séria e independente à sua possível repercussão mundial.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Portugal tem a terceira pior economia de 2011?

A revista The Economist publicou hoje um relatório no qual é dito que Portugal terá a terceira pior economia em 2011, seguindo atrás de Porto Rico e da Grécia. No entanto, e ao contrário do que o raciocínio imediato nos fará pensar, isto não é necessariamente mau. Sim, é verdade que não estamos numa óptima condição financeira, mas em termos económicos, um crescimento negativo deste género até é considerado saudável.

Dizem-nos os teóricos que existem ciclos económicos - o economista russo Kondratiev foi um deles: crescimento, estabilidade, recessão e depressão. É neste último que surgem os crescimentos negativos. Nestes ciclos, nunca se devem ultrapassar os 3%. Portanto, se temos um crescimento negativo de 1,2, é verdade que as coisas não estão famosas. Mas estamos só a ter uma gripe que podemos resolver de forma saudável.

Teríamos razões para nos queixarmos se estivéssemos na situação da Eritreia ou do Qatar, que têm crescimentos a rondar os 15 por cento. É que o crescimento económico é como o crescimento do ser humano: se cresces muito e depressa, cedo vais ter problemas graves na coluna. Ou, se se preferir, quanto mais alto é o voo, maior é a queda.

Sem dúvida que vivemos tempos difíceis, mas também não nos podemos deixar levar pelo negativismo dos media (regra doirada: bad news are good news); do que muita gente se esquece, ou nem sequer sabe, é que os media não transmitem a realidade, mas sim uma parte dela. É como ter um bolo em que apenas uma das fatias tinha caído ao chão. Os media vão focar-se na fatia estragada porque é a que foge da normalidade.

Digo e repito: as coisas não vão estar fáceis nos próximos tempos, mas o caso não é tão grave como se faz crer. A lógica dos media e os malabarismos dos especuladores levam-nos a acreditar num retrato mais feio do que a paisagem que temos à nossa frente.

Musico-dependência

Ninguém vive sem ela, toda a gente convive com ela, nem que seja por meros segundos –muitas vezes até sem dar conta. A música assumiu um papel central na nossa vida pessoal, social e até profissional. Não há como lhe fugir – a música é omnipresente; mesmo quando não a queremos (será possível?) ela está lá. No elevador, na loja, no carro, até no toque de telemóvel.

Tendo em conta a minha fixação (leia-se, dependência) na música, é mais que natural que tivesse de escrever sobre ela. Adoro ouvir música, mas vai muito para além disso: sou músico (ou tento, pelo menos) desde os 12 anos de idade, leio muito sobre música e agora até estou a escrever uma tese sobre música e comunicação.

Mas… Afinal, o que é que nos leva a querer desesperadamente ouvir (ou, quiçá, fazer) música? Sim, o cérebro, sem dúvida. Mas será apenas instinto ou haverá qualquer outra razão que nos faz querer ouvir uma simples melodia, tocada desta ou daquela maneira?

Este vício (ou, noutros casos, aptidão) é puramente patológico. Oliver Sacks, no seu magnífico Musicofilia, dá conta de casos extremos de sensibilidade musical. Recordo-me, por exemplo, da senhora que tinha ataques epilépticos sempre que ouvia um Sol sustenido, ou da menina que tinha hipersensibilidade musical e que disse a memorável frase: “O pai espirra em ré!”.

Música… Porquê, afinal de contas?

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O que te deixa arrebatado?

“Se perdesse um olho por acidente, manteria as suas opiniões sobre o Mundo?” - Gonçalo M. Tavares, in Matteo Perdeu o Emprego

Confesso: Sou um leitor compulsivo. Viciado, mesmo. Não vivo sem livros. Portanto, será de esperar que aquilo que me deixa realmente arrebatado seja uma óptima estória de amor. Nada mais falso.

A mim o que é capaz de me deixar de queixo caído são duas coisas simples: ou frases apanhadas a meio de algum raciocínio (mais ou menos) complexo, como esta que encontrei num dos últimos livros do Gonçalo M. Tavares – que, já agora, aconselho vivamente -, ou ideias espantosas que nos façam pensar fora da caixa, numa realidade que possa ser, de alguma forma, diferente daquela em que estamos inseridos, seja ela alcançável ou não. A título de exemplo, três pequenas palavrinhas: Intermitências da Morte.

Fora do mundo literário, também uma qualquer frase apanhada a meio de uma música (ou mesmo uma melodia que nos faça compreender a real beleza daquilo a que se convencionou chamar de música) é capaz de me fazer sentir como se tivesse apanhado uma valente bofetada de um urso pardo.

E a ti?

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Um Passeio a Évora

Eu admito que disse que ia divulgar ideias interessantes que me passassem pelos olhos e pela mente; ideias de outros, leia-se. Mas tenho de ser presunçoso ao ponto de partilhar uma ideia minha.

Na última quinta-feira de 2010, a minha estimada cara-metade pediu-me que fosse com ela a Évora, a fim de visitar alguns amigos com quem já não estava. Embora não estivesse para aí virado (muito por culpa do tempo e do alerta laranja em que estava praticamente o país inteiro, por causa da chuva e do vento), a verdade é que lhe disse que sim e lá fomos.

A meio do temporal, dentro do carro, a ideia de ter um acidente e de, provavelmente, ter sérios ferimentos ou, na pior das hipóteses, morrer, eis que me surge esta ideia: sentarmo-nos num carro com outra pessoa ao volante é das maiores provas de confiança que lhe podemos dar. Porque, afinal de contas, aquela pessoa tem a minha vida nas mãos. Literalmente. Se lhe passar uma bolha no cérebro e se decidir espetar-se contra uma árvore, já fomos. E, mesmo assim, nós dizemos-lhe: sim, leva-me para onde quiseres, a que velocidade quiseres, no grau de (in)consciência que tiveres.

O grau de entrega de nos sentarmos no carro de outra pessoa, seja para uma viagem de cinco minutos ou de quatro horas, é similar ao de nos deitarmos na mesma cama ou de partilharmos os nossos segredos mais íntimos. Todos podem trazer uma enorme satisfação ou problemas gravíssimos.

A propósito, chegámos bem.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Multiculturalismo ou Globalização... Qual o caminho?

Dei-me conta das enormes ambiguidades presentes nos conceitos de “multiculturalismo” e de “globalização” há menos de um ano, mas agora o assunto surgiu-me de novo graças às ideias de Martha C. Nussbaum. A autora expõe a sua proposta para uma unificação cultural mundial na obra Cultivating Humanity. Para Nussbaum, a educação dos adolescentes e dos jovens adultos deveria assentar num modelo em que fossem mostradas (de forma simpática, deve dizer-se) todas as culturas mundiais de maior relevo, sem quaisquer preconceitos baseados na raça, na etnia, no sexo ou na religião. Por outro lado, deveria ser promovida uma política de pensamento livre entre os jovens, descurando o puro “empinanço” de factos. Até aqui, tudo muito bonito, sem dúvida. Mas…

Não será esta uma pura utopia? Se os homens não se conseguem entender dentro do seu próprio Estado, devido à enorme multiplicidade de intenções (sejam elas boas ou más, isso não vem agora para o caso), como poderiam entender-se enquanto “cidadãos do Mundo”, como idealizava Sócrates? Como poderemos pôr um italiano a dar-se lindamente com um romeno, se se promovem comportamentos racistas em terras de Monsenhor Berlusconi? Como podemos esperar que os conflitos de interesses se resolvam, se existem jornalistas escondidos com medo de represálias de grupos perigosos clandestinos, como Roberto Saviano, ainda a sofrer pela publicação do seu Gomorra? Como podemos esperar que se resolvam quezílias entre Oriente e Ocidente, se ainda há um Salman Rushdie a fugir da fatwa que lhe foi imposta?

É bem verdade que os entendimentos inter-culturais assentam em imensos preconceitos absolutamente errados. Antonio Salas demonstra-o bem na sua recente investigação O Palestiniano, revelando diversas ideias erróneas proliferadas nos media ocidentais sobre os países árabes.

Não há dúvida que se caminha para um mundo unificado (ou, pelo menos, tenta-se). No entanto, essa unificação pode chegar de duas maneiras: ou pelo já mostrado multiculturalismo (utópico) ou pela aclamada globalização, que não é mais que a imposição cultural, económica e política dos países do Norte sobre o Sul/Oriente. Mas mesmo esta alternativa parece estar ameaçada pelo crescente poderio dos novos dragões asiáticos (China e Índia) e do Brasil.

Sem dúvida que a unificação supra-estadual mundial seria uma enorme mais-valia para o desenvolvimento mundial, fosse ele qual fosse – não será curioso que todas as histórias (cinematográficas ou não) de extra-terrestres que invadem a Terra não tenham quaisquer conceitos inter-estaduais ou de desacordo político entre eles? Poderá esta ser uma inculcação inconsciente (ou nem tanto…) da necessidade de unificação da Humanidade? No entanto, a verdade é que existem ainda longos caminhos a percorrer para obter essa unificação (isto, é claro, se lá chegarmos). Até lá, observemos todas as ideias e propostas com olho crítico, admitindo o potencial destas, embora nunca desafiando a exequibilidade de todas elas.