sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Julian Assange: Herói ou Vilão?

Sou um particular admirador de jornalistas e de investigadores que fazem de tudo para trazer à tona tudo a que se possa chamar de verdade (embora o próprio conceito seja problemático, mas não é por aí que queremos ir). Admiro muito gente que arrisca a sua própria vida para divulgar algo humanamente valorizável. No entanto, há que estabelecer um limite: se essa verdade ameaçar vidas humanas, talvez não seja tão nobre divulgá-la. Ou pelo menos da forma mais convencional.

Darei aqui dois exemplos do mais alto calibre para que melhor se compreenda o meu ponto de vista. Nápoles, 2004. Roberto Saviano, um jovem jornalista italiano começou a desenhar aquilo que viria a ser uma brilhante investigação sobre a máfia napolitana, a Camorra. Foram divulgadas actividades ilícitas, procedimentos de assassinatos (incluindo o homicídio ocorrido em Cascais em 1984, numa cabine telefónica, num ajustes de contas entre membros de famílias napolitanas rivais), casos de corrupção e, acima de tudo, nomes. Muitos nomes de intervenientes nestas práticas. Até aqui, tudo bem. Apesar de Saviano ter de viver escondido e de ter de se proteger ao máximo da Camorra, provavelmente foram conseguidas algumas medidas de prevenção e combate à máfia.

Jerusalém, 2006. O jornalista espanhol de pseudónimo Antonio Salas estava já a meio da sua investigação sobre as guerrilhas de resistência palestinianas e sobre a religião islâmica em si. Além de falar sobre procedimentos, Salas dá-nos uma visão completamente diferente da que os media convencionais ocidentais nos oferecem. E combate, sobretudo, o preconceito. As ideias (erradamente) criadas pelos ocidentais caem todas por terra com as descrições feitas pelo jornalista espanhol, ao longo da sua infiltração em organizações como o Hezbollah, a Al Qaeda ou o Hamas.

E, do outro lado, temos Julian Assange, que procura fazer o mesmo trabalho na secretaria, sem ir ao terreno. É certo que é uma atitude nobre, a de divulgar ataques sérios à humanidade. Aquilo que teria de ser bem mais medido são as condicionantes inter-culturais: se Assange divulga documentos relativos à diplomacia, podem nascer complicações diplomáticas com repercussões humanitárias gigantescas. E, aí, teremos aquilo que o próprio Assange tencionava combater: um povo a sofrer pelos erros dos seus governantes. Mas se os erros não forem do domínio geral, talvez o povo não sofra tanto.

Não estou com isto a dizer que Julian Assange é uma ameaça internacional ou que devia ser preso durante uma infindade de tempo, por saber verdades comprometedoras para todos os governos mundiais (como Viktor Bout, por exemplo). No entanto, aquilo que é necessário é uma gestão da divulgação destes documentos e uma análise séria e independente à sua possível repercussão mundial.

1 comentário:

  1. A ideia de que o fim justifica os meios para mim sempre foi uma ideia de merda, perdoem me a expressão mas merda encaixa aqui bem.
    Sim uns quantos idealistas apoiam este tipo de transparencia mas nem sequer pensam muito nas consequencias deste acto.
    O que é certo era que a vida deste senhor fosse uma conta de twitter e que cada vez que alguma coisa da sua vida privada mais embaraçosa ele não iria de certo achar assim tanta piada.
    Èpa não é a mesma coisa mas é sem duvida parecido.
    Já toda a gente devia compreender que a verdade deve ser medida e que a liberdade de expressão não é a mesma coisa que a "liberdade de expressar" os outros.

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