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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Focus: o tão anunciado fim chegou

Entrei na redacção da Focus pela primeira vez no final de Julho de 2008. Era na altura um puto imberbe, que ainda nem tinha acabado o curso superior, mas que já queria ganhar experiência no jornalismo. Ontem, quase quatro anos depois, presenciei a decisão de encerrar a casa de muitos nós.

A Focus nasceu com o propósito de concorrer com a Visão – e, mais tarde, com a Sábado. Mas desde cedo se percebeu que o grande desafio dos jornalistas da Focus era apenas a sobrevivência. E conseguimo-lo. Até ontem.

Todas as horas aqui passadas por estes (poucos) jornalistas, que todas as semanas enchiam as 130 páginas da revista, tornaram-nos numa família. Não somos demasiados para que se perca essa proximidade. E foi por eles que me senti mal quando a administração cá veio para comunicar o despedimento destas 18 pessoas – paginação, fotografia e secretaria de redacção incluídas.

O clima depois do anúncio de despedimento era estranho, próprio de quem está desorientado por não saber o que vai acontecer à vida. Pouco depois, alguns jornalistas já aqui se tinham reunido a relembrar outros tempos – alguns dos quais nem sequer vivi. Mas a boa disposição disfarçava o pânico que todos sentimos por ter de enfrentar o desemprego, nesta área apinhada que é a nossa.

Hoje de manhã, o clima é de resignação. Estou a escrever este texto no lugar em que fechei páginas da Focus ou fiz algumas das melhores entrevistas telefónicas da minha ainda curta vida de jornalista. Sei que me esperam novas paragens, mas tenho o temor natural dos tempos que correm.

Por mais estranho que possa parecer, o maior medo nem era por mim. Era pelos meus colegas. A minha família profissional. Especialmente os jornalistas, aqueles com quem falava e discutia todos os dias. Seja quem for que leia isto, jornalista ou não, leitor da Focus ou simples curioso, há algo que quero que saibam: esta foi A casa. A casa que me acolheu, a casa que me ensinou a ser melhor, em tudo. E tudo graças a esta gente.

Por isso, agradeço-lhes. Agradeço, em primeiro lugar, ao Humberto, pela confiança em mim e por se ter esforçado por me trazer para cá por duas vezes. Obrigado ao Vítor, pela boa disposição e pela excelente orientação em jornalismo de terreno. Obrigado ao Pedro Barros Costa, pelos debates (e pelas lições) sobre política e economia. Obrigado à Carla Jesus, por me mostrar o que é o esforço hercúleo de ser jornalista. Obrigado à Mirce, por ter sido a primeira a ajudar-me numa redacção, naqueles idos de 2008. Obrigado ao David e ao Cláudio, pelo maravilhoso companheirismo. Obrigado ao Damas, pela incrível boa disposição. Obrigado ao Carlos Correia, pelos episódios contados ao almoço e que tão bem nos faziam a todos. Obrigado ao Nelson Vilar, pelas indignações matinais que tanto nos divertiam. Obrigado ao Tiago, ao Fiel, ao Dino e à Rute, por saberem sempre dar uma boa roupagem às nossas palavras. E obrigado à Fátima, que um dia foi tema de um editorial, por saber sempre cuidar de nós nas horas (complicadas) de lidar com burocracias.

É hora de mudanças, como se nota pelos caixotes e pelas pontas soltas que vão sendo atadas por todos nós. Daqui, do meu lugar, na antiga redacção da Focus, tento fazer uma fotografia mental de tudo o que por aqui se passou. Adoro-vos. Vou ter saudades vossas. Até já.

Nelson Nunes